Não sei porquê, mas sempre que tento imaginar o meu passado, vejo uma pequena neblina a pairar sobre o que deviam ser imagens nítidas. Penso que utilizei bem o verbo “imaginar”, uma vez que, quando recordamos as coisas, adicionamos sempre alguns pormenores, para dar mais ênfase à nossa história. Como a confiança que é acrescentada a um momento em que estávamos prestes a explodir de nervosismo ou uma pitada de drama, para tornar certas vivências mais apetecíveis.
Eu lembro-me e uma simples ida ao supermercado é capaz de se tornar numa aventura do cinema. Pois eu recordo-me de ir beber um batido de goiaba, com a minha mãe, às Galerias de São Francisco, no Funchal. Devia ter por volta de uns cinco anos. Fomos a um café que era inspirado no tema da fruta. Sempre que tento recordar-me de como era o espaço, penso numa grande mancha amarela. Os azulejos das paredes e do chão dão-me essa ilusão. As empregadas correm de um lado para o outro sorridentes, ostentando uns aventais verdes, com um desenho qualquer no meio. Estou de pé, impaciente, esperando para que a minha mãe acabe de pagar a conta, para nos irmos sentar nas cadeiras verdes, junto à janela, com um aspeto requintado.
Não entendo como é que uma memória tão banal consegue assumir tanta importância no crescer da minha pessoa. Talvez por ser mais um dos muitos momentos passados com a minha mãe, que para sempre serão guardados, no meu coração, com muito carinho… Nunca mais fomos as duas beber aqueles batidos de goiaba.

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Francisca Marques

Francisca Marques

Diretora & Editora-chefe da secção Crónica

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