Crónica

Morosidade de princípios

Pouco tempo passou desde que estudámos em sala de aula o discurso intemporal do padre António Vieira. Muitos devem estar a querer vê-lo pelas portas. Para outros falar nele até pode ser indiferente. Mas para mim, torna-se fulcral relembrar as suas palavras, na medida em que estas constituem o conteúdo principal desta minha crónica.

Morosidade de princípios…

A morosidade no seu sentido literal corresponde a lentidão, demora. Neste caso entenderíamos então como lentidão dos princípios?

O padre António Vieira louvou as virtudes dos peixes e repreendeu os seus vícios.

Louvou-lhes por serem as primeiras criaturas que deus criou, por serem obedientes, atentos e quietos e bons ouvintes das palavras de seu pregador.

Mas faziam algo de inaceitável: comiam-se uns aos outros, sendo que os maiores comiam os mais pequenos, o que agrava o seu pecado.

Este vício, repreendia – o Vieira exemplificando-o nos homens “Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças (…)”.

Comem-se uns aos outros…

Exploram-se uns aos outros…

Quem? Os colonos do Maranhão ou os Homens do século vinte e um? Não será este uma repreensão intemporal. Um pecado humano que prevaleceu após mais de duzentos anos.

Princípios, que ficaram perdidos em altura indefinida da história. São os maiores e mais poderosos que perante a inocência e ignorância dos mais vulneráveis, se aproveitam das suas fraquezas.

“Grande escândalo é este (…) ” A verdade é que esta ausência de princípios prevalecerá sempre. Porque haverá sempre pessoas más e mal-intencionadas.

Mas também haverão aqueles que desconhecem a sua condição de honestidade e simplicidade e se deixarão, por isso, explorar.

Como “pessoas conscientes e preocupadas com os outros” podemos pelo menos tentar evitar cair nessa tentação.

Mas ambos sabemos que isso não acontecerá.

Mas grandes são aqueles que vão contra a normalidade.

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Francisca Marques

Francisca Marques

Diretora & Editora-chefe da secção Crónica

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