Disce

A Rapariga dos Olhos Negros II

Algumas das minhas primeiras memórias são dos meus treinos, a frase “ninguém nasce ensinado” adequa-se perfeitamente ao meu caso, foi o meu tio Kral que me ensinou tudo aquilo que sei, como me mover no silêncio, como passar despercebida, como interpretar os gestos das pessoas que me rodeiam e até como matar sem ser apanhada, algo bastante difícil e doloroso de aprender quando tens oito anos. Fui treinada, compreendendo que eventualmente iria para o “mundo real”. Parte do meu trabalho é a infiltração, é quase como aprender a me encaixar numa vida que não é a minha, aprendi psicologia, comportamento humano, a arte de sedução e habilidades sociais no geral.

Suponho que ele quisesse ter a certeza de que se algo alguma vez acontecesse comigo ou com alguém importante para mim, eu pudesse fazer algo e, de certa forma, é isso que faço, se bem que não acredito que ele soubesse que ao ensinar-me tudo aquilo, estaria a dar o poder que precisava para me tornar naquilo que sou.

Claro que não ando por aí a matar pessoas que nunca vi só por matar, há muito mais planeamento e estudo por detrás, eu persigo-os, invado as suas vidas, aprendo tudo o que posso sobre eles, e depois caço-os. Não podes manipular ou perseguir ninguém sem os compreenderes primeiro.

Tenho sempre a certeza de que o meu alvo merece que a vida lhe seja retirada e, até agora, todos os meus alvos fizeram algo considerado desumano. Mas eu também, eles podem ser as piores pessoas à face da Terra, mas sou eu que assisto aos seus corpos a perderem a cor, os seus olhos a ficarem vazios.

A única coisa que me impede de perder a cabeça é saber que estes monstros nunca mais vão fazer nada que possa magoar ou prejudicar ninguém, isso e o facto de que a morte é a conclusão natural da vida. As pessoas morrem. Na verdade, elas morrem a toda a hora.

No inicio via-me como uma espécie de justiceira, que tirava das ruas todos estes monstros, mas essa ideia depressa desapareceu, quando me apercebi que não existem boas ou más mortes, apenas mortes. Toda a gente é mãe ou pai de alguém, irmão ou irmã, tio ou tia, todas as pessoas a quem eu tiro a vida importam para alguém, o que me faz um monstro como eles.

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Filipa Antunes

Filipa Antunes

Editora da Secção Disce

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